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Sexta-feira, 24 de Abril de 2026

A história do ex-árbitro que sumiu após erro em final e agora sonha com carreira de brigadista

Cláudio Mercante teve carreira abreviada na arbitragem por causa de polêmica na final do Pernambucano de 2011; 15 anos depois, ex-árbitro revive (e assume) erro

O primeiro e único apito, o escudo de aspirante Fifa e dois cartões são as recordações materiais de uma história que teve início, meio e fim na vida de Cláudio Luciano Mercante Pessôa Júnior. Aposentado desde 2015, o ex-árbitro pernambucano deixou o Recife para, recentemente, assumir uma nova função: brigadista civil no Distrito Federal.

Esse movimento não foi espontâneo.

"Você vai procurar, mas não vai achar nenhum lance como aquele. Você pode assistir mil jogos e não vai ter um lance feito aquele, em seis segundos. Eu não digo que foi azar, não gosto da palavra. Mas tive pouca sorte por ter acontecido comigo".

Após mais de 300 jogos e 25 clássicos, Cláudio Mercante encerrou sua carreira de árbitro em 10 de março de 2015, quatro anos depois de enfrentar a maior punição já imposta a um juiz local até então.

Uma década depois, ele decidiu lidar com a ferida e reviver o lance que mudou — mas não moldou, como sustenta — a própria carreira. O primeiro jogo da final do Campeonato Pernambucano de 2011 entre Sport x Santa Cruz, a segunda e última decisão por título em que o árbitro trabalhou.

A fotografia do caos

O relógio marcava seis segundos no cronômetro. O tempo necessário para Bruno Mineiro, atacante do Sport, disparar em direção à bola, sob posse do zagueiro Thiago Mathias, último homem do Santa Cruz. E ver o defensor escorregar, permitindo-lhe caminho livre para chegar ao gol tricolor.

Não aconteceu, porque Thiago se jogou no corpo de Bruno, impedindo sua passagem. Mercante marcou falta, mas não expulsou o jogador coral, advertindo-o somente com cartão amarelo. Era o início do estopim na Ilha do Retiro — que terminou em vitória do Santa por 2 a 0 e título tricolor.

E amplificado pouco tempo depois em lance com o mesmo Thiago Mathias. O zagueiro cometeu outra falta em Bruno Mineiro e não recebeu o segundo amarelo, cobrado pelos rubro-negros. Quase 15 anos após aquele 8 de maio de 2011, Mercante assume o arrependimento:

— Qual árbitro nunca errou? Eu infelizmente errei. A visão minha, na hora, era de que tinha um zagueiro que dava condição para o lance continuar. Foi muito ruim, prejudicial, mas aconteceu — declara.

"Se eu pudesse voltar atrás... Com certeza o único lance da minha carreira era esse. Porque prejudiquei uma equipe, numa final, mas o árbitro está passível de erro", desabafa.

— No primeiro lance, se fosse voltar hoje, com certeza seria vermelho direto. No segundo a minha preocupação foi se a bola foi dentro ou fora, e marquei certo porque foi fora. Se tivesse o VAR, o lance seria até anulado, porque o Bruno Mineiro estava à frente da linha da equipe dele no início do jogo. O lance teria que ser repetido no tiro inicial. Não vi porque estava de costas. Se eu tivesse visto com certeza o lance seria anulado. Então não teria falta nem cartão — acrescenta Mercante.

Uma montanha russa de sentimentos difícil de acreditar quando semanas antes do jogo confidenciava a amigos e família o reconhecimento pelo próprio trabalho. Era uma promessa em ascensão.

 

+ Em reprise de final com Sport, Santa Cruz revive polêmica de arbitragem e ironiza lance decisivo

— Lembro que uma semana antes eu tinha apitado Sport x Náutico. Depois, fui pra Granja Comary fazer cursos. Depois, escalado para apitar a semifinal do Campeonato Mineiro, jogo massa, detonei no jogo. E quando desço pra Recife, recebi a notícia da final. Eu estava sendo reconhecido — lembra.

Mas o impacto daquele dia se sobrepôs à vida e à carreira de Mercante. Em especial também pela entrevista reveladora do árbitro ao Superesportes, do Diario de Pernambuco, confidenciando a pressão do presidente da Federação, Carlos Alberto Oliveira, para não ter expulsões no início das finais.

A declaração lhe tirou do clássico entre Náutico x Santa Cruz, que seria o seu primeiro grande jogo envolvendo dois grandes do Estado após a geladeira, a menos de 24 horas do jogo.

— Não queria entrar nesse tópico. Cada um tinha um jeito de fazer as coisas e infelizmente é o que aconteceu. Foi tanta coisa, sabe, que passou? É fogo. O árbitro tem que cumprir a regra, infelizmente. Em 2011, logo depois do Estadual, começo a não apitar mais jogos da Série A. Apitei mais Série B e Série C. Fui perdendo o prazer de trabalhar — conta.

Ge

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